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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cowboys and Aliens - CRÍTICA


Após o excelente e inesperado  resultado do primeiro Homem de Ferro, Jon Favreau despontou como diretor, mas quando o segundo episódio chegou aos cinemas, uma coisa ficou evidente: era Robert Downey Jr. quem carregava o projeto nas costas graças a sua atuação na pele de Tony Stark. Não que a direção deixasse de ter seus méritos, mas sem o ator, Homem de Ferro talvez não tivesse alcançado tamanho sucesso.

NOTA: 60
Cowboys and Aliens - TRAILER
 

Foi então que o cineasta decidiu abandonar a franquia para comandar o projeto intitulado Cowboys & Aliens, inspirado em uma HQ que nem havia sido lançada. Agora que a película faz sua estreia, Favreau comprova que está longe de ser um diretor tão inventivo quanto se pressupunha. 


No filme, acompanhamos a história de Jake Lonergan (Daniel Craig), que acorda ferido e sem memória no meio do deserto do Novo México. Assim que Lonergan alcança a cidade de Absolution, a vida de seus moradores muda drasticamente quando um ataque de alienígenas acontece e muitos são abduzidos. Com o auxílio de uma misteriosa mulher, Ella (Olivia Wilde), e de um rico fazendeiro local, Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford), o cowboy decide resgatar aqueles que foram capturados na esperança de lembrar seu passado.
Assim que o filme tem início, somos apresentados a Jake Lonergan, um personagem bruto e sem limites que é encarnado por Daniel Craig com a mesma vitalidade conferida ao seu James Bond. Na verdade, com exceção da poeira e do chapéu, em pouco podemos diferenciar o cowboy do agente secreto, já que o ator se resume a repetir o charme e a intensidade física aplicados ao seu outro papel. Assim, apesar de ser o centro do enredo, Lonergan jamais envolve o espectador, principalmente se levarmos em conta que a história que remonta de seus flashbacks é pouco inspirada e extremamente previsível. Já Harrison Ford, que tinha a grande chance de chamar a atenção para sua composição de Dolarhyde, pouco consegue ao ser sabotado pelo roteiro que lhe concede um personagem aborrecido, surgindo em cena sempre com a cara amarrada. Se levarmos em conta que muitas de suas cenas se passam no escuro, a coisa fica ainda pior. Ainda na esperança que a beleza de Olivia Wilde salvasse o trio principal, ficamos a ver navios, já que Ella é a persona mais despropositada de Cowboys & Aliens, chegando até a agir como um deus ex-machina em determinado ponto da projeção apenas para justificar a fluidez da história. Não que o roteiro escrito a cinco mãos deixe de tentar explicar quem é aquela mulher, mas isso nunca convence o público de fato, e pior, acrescenta uma pitada de fantasia a uma mistura que não necessitava de mais elementos. Em dado instante, achei que dragões, fadas e elfos surgiriam na tela.


O único que se sobressai é o sempre excelente Sam Rockwell, que prova sua versatilidade ao assumir um personagem covarde e franzino, mas que, infelizmente, é escanteado a simples coadjuvante. Mas se o script de Roberto Orci, Alex Kurtzman e companhia falha ao desenvolver seus personagens, recaindo em clichês, ao menos cresce quando tem que colocá-los frente a frente, fazendo com que os primeiros vinte minutos da sessão sejam os mais interessantes. A apresentação de Absolution e os pequenos dramas particulares gerados são eficientes, tornando o "Cowboys" do título infinitamente mais interessante que o "Aliens". A recriação da época é feita com primor pela figurinista Mary Zophres e pelos designers de produção Scott Chambliss e Russell Bobbitt, pois em nenhum momento desconfiamos estar em outro lugar que não o Velho Oeste.
Pena que a fotografia de Matthew Libatique, excelente em Cisne Negro, não seja tão bem conduzida, oscilando entre momentos bem pensados, como quando o rosto de Lonergan é encoberto assim que ele alcança Absolution, evidenciando sua personalidade obscura e seu deslocamento em relação aos habitantes, e outros que só atrapalham a experiência cinematográfica, como muitas cenas que se passam no escuro e revelam pouco das faces dos personagens que acompanharemos durante todo o filme. Com isso, o cinegrafista e seu diretor acabam afastando qualquer possibilidade de envolvimento que o espectador possa ter para com esses. Por outro lado, os flares - reflexos luminosos - aparecem organicamente na trama, ao contrário do que acontece na maior parte da filmografia de J.J. Abrams, vide o recente Super 8. Piscando rapidamente na tela, o recurso compõe de forma interessante as luzes usadas pelas naves extraterrestres, estabelecendo um contraponto com as cores mais ardentes do deserto que cerca Absolution. E mesmo a clássica cena do bar é bem explorada quando Libatique brinca com tons avermelhados, indicando não só o perigo iminente da situação como servindo de metáfora para o ambiente promíscuo, onde a bebida predomina e os caracteres se chocam.


Harry Gregson-Williams escapa, enfim, do círculo vicioso no qual havia se metido. Desde Cruzada, de Ridley Scott, o compositor parecia não querer se desprender de determinados acordes que se repetiam, por exemplo, em As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian. Em Cowboys & Aliens, a música surge diferenciada e mais sutil, contudo não escapa dos percalços que outros aspectos técnicos da produção sofrem. Se em princípio parecia que teríamos uma trilha instrumental diferenciada, que mesclaria o ritmo do Velho Oeste com as batidas do rock, logo Gregson-Williams abandona a possibilidade e recai no lugar-comum. Assim, as chances de fugir do estereótipo culminam numa trilha apagada, demonstrando que quando não se entrega àquilo que sabe, Gregson-Williams apenas se perde.


Mas nem tudo cheira mal em Cowboys & Aliens. Apesar dos problemas latentes, há o que ser apreciado em tela, como por exemplo, os planos abertos que Favreau cria ao mostrar o deserto do Novo México. As paisagens são belas e os personagens, beneficiados pela maquiagem, incorporam com facilidade a vida naquela região inóspita. Repare como o enredo faz questão de retratar a ignorância da época, mesmo que de forma fabulesca, ao fazer com que um pastor informe que as naves batem com a descrição dos demônios da Bíblia. Enquanto isso, a boa edição de som permite que o público mergulhe nos sons discrepantes daquele universo que mescla o atraso da humanidade com a tecnologia dos extraterrestres. Numa cena que se passa em um navio, os ruídos da chuva e estalidos da estrutura ajudam a compor uma ambientação verossímil e uma situação tensa. Cowboys & Aliens ainda conta com as criaturas do espaço mais interessantes desse ano, diferentes daquelas mostradas em Super 8 e Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles, já que são seres mais funcionais e com uma personalidade bem delineada. Longe de alcançarem o posto de melhores extraterrestres do cinema, no mínimo soam poderosos e ameaçadores.
Assim, num típico aventurão para ser visto com pipoca e refrigerante, pelo menos podemos contar com um diretor que é honesto não só consigo mesmo como com seu público, já que nos entrega uma história objetiva que não pretende ser mais que isso, e tal característica se reflete em seu personagem principal que comumente opta por decisões ágeis e pouca enrolação. Contando com bons efeitos visuais e um ritmo de ação vibrante, mesmo que sem surpresas, Cowboys & Aliens consegue divertir sem deixar de ser apenas um filme mediano que comprova que nem sempre excelentes conceitos rendem boas histórias.


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