IconIconIconIconIconIcon

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Voo - CRÍTICA

Em “O Voo”, Denzel Washington é Whip Whitaker, um piloto de avião alcoólatra e viciado em drogas, divorciado, e com um filho adolescente. Após mais uma noite virada em claro, ao lado de uma das aeromoças (mais uma de suas muitas conquistas), o sujeito realiza seu décimo voo em três dias. Não é segredo revelar o grande fato, que faz parte da sinopse, e ocorre logo aos 20 minutos de projeção:

Devido ao mau funcionamento dos aparelhos a aeronave rompe em queda livre após uma decolagem turbulenta. O experiente piloto parte então para o seu plano B, ou seria C, já que todas as alternativas haviam sido descartadas. O personagem de Washington gira então o avião de ponta-cabeça para pousá-lo, numa das cenas de maior adrenalina do ano passado. Após apenas 6 passageiros, de mais de 100, perderem as vidas, as investigações começam sobre o que causou o desastre, e sobre a vida turbulenta do errático piloto.
NOTA: 75
O Voo” marca a volta do prestigiado Robert Zemeckis aos filmes live-action após doze anos. Zemeckis, cineasta apadrinhado por Steven Spielberg, tem em seu currículo verdadeiras preciosidades do cinema americano, como a trilogia “De Volta para o Futuro”, “Uma Cilada para Roger Rabbit”, “Forrest Gump”, “Contato” e “Náufrago” (seu último trabalho com atores reais, até então). O diretor ultimamente se empenhava para que a técnica de captura de movimento funcionasse, o que a seu ver iria substituir os filmes com atores reais como os conhecemos. Zemeckis estava disposto a somente trabalhar assim daqui pra frente, mas os fracassos consecutivos de suas investidas na técnica, em filmes como “A Lenda de Beowulf”, “O Expresso Polar” e “Os Fantasmas de Scrooge”, não mostravam um futuro muito promissor. A gota d´água veio com “Marte Precisa de Mães”, que Zemeckis apenas produziu e não dirigiu, um fiasco tão grande que terminou por fechar o estúdio do diretor.
Quem sabe não foi para melhor? Afinal, “O Voo” lista como um de seus melhores trabalhos. Quando os nomes de Zemeckis e do ator Denzel Washington foram anunciados nesse novo projeto, a expectativa era grande, e ela foi cumprida, essa é uma das melhores obras cinematográficas do ano passado, que poderia facilmente ocupar o último espaço deixado em branco na categoria dos melhores filmes do ano, e não apenas receber suas duas indicações, de melhor ator para Washington, e melhor roteiro para John Gatins. “O Voo” é um filme mainstream, uma grande produção confeccionada para todo tipo de público, ou seja, para o grande público, dessas que costumam sempre emplacar no Oscar, grande filmes hollywoodianos. Mesmo dentro desses padrões, onde tudo é feito de uma forma mais agradável a fim de conseguir falar com todo mundo, o filme surpreende. Uma obra como “O Mestre”, por exemplo, que também toca no assunto do alcoolismo, e de certa forma de sua pretensa salvação, se comunica com uma fatia menor, assim como a maioria dos filmes dePaul Thomas Anderson, são filmes de arte, estranhos para o grande público.
O Voo” poderia ser uma obra piegas, recheada de clichês, como digamos, um “Tão Forte e Tão Perto” da vida. Mas tal caminho é evitado por alguns motivos. O primeiro deles é o texto escrito por John Gantis, indicado para roteiro original, que evita quase sempre a previsibilidade não nos deixando ver a quilômetros de distância o que vem a seguir. Esse é um interessante estudo de personagem, onde não são mostrados caminhos fáceis, e engana-se quem acha que essa é uma daquelas histórias de superação, onde o protagonista precisa enfrentar seus demônios e ao final os vence. Essa é uma história humana, onde um sujeito precisa desesperadamente dar a volta por cima, de forma realística, e de certa forma nua e crua. Denzel Washington, um dos melhores atores da atualidade, tem um desempenho certeiro e emocionante, como o centro dessa obra. Esse é o trabalho mais politicamente incorreto da carreira do diretor Zemeckis, que como dito, é discípulo de Spielberg, e isso é muito bom.
Logo na primeira cena, Zemeckis expõe a nudez frontal da belíssima Nadine Velazquez, por muitos segundos. Ao longo do filme, temos cenas fortes e violentas, de sanguinolência, e o desfecho, a cena que precede a audição do caso de Washington, com seu personagem, John GoodmanDon Cheadle e Bruce Greenwood é histérica de tão incorreta. São detalhes, que para uma nação extremamente preocupada com a censura, onde muito menos pode ser crucial para o desempenho de um filme, é muito bom ver que todos os envolvidos, principalmente Zemeckis, assumiram esse risco num produto mirado à milhões de pessoas. A gratuidade não existe, e tudo acontece obviamente favorecendo a trama. É um alívio ver os votantes da Academia voltando ao caminho certo, e prestigiando filmes como esse, “Amor”, “Indomável Sonhadora”, “Django Livre” e “A Hora Mais Escura”, após a premiação bonitinha do ano passado.

counter easy hit